CONEXÃO CCT: UMA HISTÓRIA DE RECONSTRUÇÃO E EXCELÊNCIA NA ENGENHARIA MECÂNICA
A história do curso de Engenharia Mecânica do Centro de Ciências e Tecnologia da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) é marcada por ciclos de criação e reconstrução — um percurso que reflete tanto os desafios institucionais quanto a capacidade de adaptação às demandas regionais.
As origens remontam à antiga Escola Politécnica da Paraíba, depois, Escola Politécnica de Campina Grande, a primeira criada ainda na década de 1950, quando Campina Grande despontava como polo de desenvolvimento industrial. Inicialmente, havia apenas o curso de Engenharia Civil, inaugurado em 1954, as Faculdades Católica de Filosofia da Diocese, Ciências Econômicas (FACE) da Prefeitura, Odontologia, Química, Arquitetura e Urbanismo, Direito e Serviço Social, sendo este último, da Congregação das Irmãs de Caridade. Foi somente no primeiro meado da década de 1960 que surgiu a proposta de criação dos cursos de Engenharia Elétrica e de Engenharia Mecânica, atendendo às necessidades de expansão tecnológica da região e demandas regionais, que eram sempre foco de ações do ensino superior em Campina Grande.
No entanto, a trajetória do Curso de Engenharia Mecânica na instituição não foi linear. Em 1970, o curso foi desativado em Campina Grande devido a uma reestruturação do ensino superior que impedia a duplicidade de cursos semelhantes na mesma região.
O professor Dr. Jônatas Araújo de Lacerda Júnior relata que, “pelo decreto de 1967, de Reestruturação do Ensino, ano de criação do Curso de Engenharia Mecânica, integrante da Escola Politécnica de Campina Grande, não poderia haver dois cursos com objetivos similares, ou equivalentes. Logo, não se poderia ter um curso de Engenharia Mecânica em Campina Grande e outro em João Pessoa, muito embora o curso de Engenharia Mecânica em Campina Grande estivesse muito mais estruturado que o curso de João Pessoa, com laboratórios de ensino e oficina mecânica, além de muitos professores parceiros formados no Instituto de Tecnologia Aeroespacial – ITA, oriundos do apoio dado pelo Projeto R.I.T.A (Rural Industry Technical Assistence) e do Programa USAID dos Estados Unidos. Cabe destacar que prevalecia o modelo gerido pelo “Conselho Departamental”, a exemplo dos departamentos, Departamento Fundamental, Departamento de Engenharia Industrial, etc. Sob tal premissa de Reestruturação do Ensino, o Reitor Guilardo Martins desativou o curso de Campina Grande”.
Como consequência, as atividades foram transferidas para João Pessoa, gerando forte reação local há época, inclusive de empresários que haviam investido inicialmente na estrutura do curso. “Houve grande revolta de comerciantes e demais próceres da sociedade de Campina Grande, que não queriam que desativassem o curso, inclusive muitos acusavam o Diretor da Escola Politécnica, Lynaldo Cavalcante e o Reitor Guilardo Martins”, completou Jônatas.
Recomeço e consolidação
A Engenharia Mecânica voltaria a funcionar em Campina Grande em 1973/74 como curso da Universidade Regional do Nordeste (URNe). Em 1977, o Professor e Engenheiro, Lynaldo Cavalcante de Albuquerque, ex-diretor da Escola Politécnica de Campina Grande, a querida e respeitada “POLI”, destarte, como Reitor da UFPB, encampou o curso de Engenharia Mecânica da Universidade Regional do Nordeste (URNe), ao sistema multi-campi, criado em 1978, e que constitui atualmente o Curso de Engenharia Mecânica da UFCG, reconhecido em 02 de Maio de 1979. Foi um trabalho que praticamente recomeçou do zero, a partir da URNe. O curso atual nasce nesse momento, reconstruído com base em novas estruturas e com o apoio de professores recrutados nacional e internacionalmente. Esse recomeço marcou uma nova fase, com forte compromisso com o ensino e com a formação de profissionais voltados para atender às demandas industriais da região — característica que sempre orientou a criação de cursos superiores em Campina Grande, desde os anos 1950 -, e hoje, dos cursos no CCT.
Ao longo das décadas seguintes, o curso expandiu sua atuação e se tornou um núcleo formador de outras áreas. A Engenharia Mecânica foi responsável por gestar cursos como Desenho Industrial, Engenharia de Produção e Engenharia de Petróleo, como também contribuiu para a criação de novas unidades acadêmicas, demonstrando sua centralidade dentro da estrutura do CCT.
Segundo o professor Dr. Manasses da Costa Agra Mello, coordenador administrativo do curso, houve uma época em que o curso de Engenharia Mecânica contou com 65 professores. “Professores de Desenho Industrial, Expressão Gráfica, além das disciplinas de desenho em Civil, Elétrica e Minas eram de responsabilidade da Engenharia Mecânica. A partir daí, a Mecânica foi se estratificando e outros colegas foram se dedicando a outras unidades”, afirmou o professor.
Ensino e pesquisa: evolução do curso
Durante muitos anos, a formação em Engenharia Mecânica teve como foco principal o ensino e a assistência à indústria, com menor ênfase na pesquisa científica. Esse cenário começou a mudar a partir dos anos 2000, quando houve um esforço institucional para reestruturar a pós-graduação, cujo curso de Mestrado havia sido descontinuado.
Entre 2002 e 2008, foram realizadas diversas tentativas de criação de um novo programa de pós-graduação, até que, em 2009, a proposta foi finalmente aprovada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). O programa iniciou suas atividades em 2010 com um curso de Mestrado de caráter interdisciplinar, reunindo diferentes áreas da Engenharia Mecânica em torno de uma única área de concentração: sistemas termomecânicos.
O professor Dr. Carlos José de Araújo, coordenador do Laboratório Multidisciplinar de Materiais e Estruturas Ativas (LaMMEA), mencionou o esforço executado ao longo de quase uma década para a estruturação de um programa de Pós-Graduação com três linhas de pesquisa: Análise e Projeto de Sistemas Termomecânicos (AST); Fenômenos de Transporte e Energia (FTE); e Processos Mecânico-Metalúrgicos (PMM).
Desde então, o programa tem se mantido estável, com produção acadêmica consistente, ainda que enfrente desafios para avançar em avaliações da CAPES e expandir para o nível de doutorado — uma meta futura do departamento.
“A gente vendeu para a Capes a ideia de que teríamos um programa de foco interdisciplinar e foi criado, de fato, em 2010, um novo curso de mestrado”, afirmou Carlos que se mostrou otimista com o futuro do curso. “Agora a gente está entrando num novo ciclo, […] com a contratação de novos docentes para reduzir a nossa dependência de professores de fora do departamento” completou o professor.
Formação prática e impacto social
O curso de Engenharia Mecânica da UFCG sempre esteve profundamente conectado às necessidades do contexto regional. Desde sua origem, a criação e manutenção do curso estiveram vinculadas ao desenvolvimento industrial, à presença de atividades mecânicas e às demandas tecnológicas do Nordeste.
O curso propõe uma formação para além da sala de aula. Programas e Projetos como o PET (Programa de Educação Tutorial), financiado pela CAPES, além de Mini Baja e Aero Design, apoiados pela UFCG, estimulam os estudantes a desenvolver atividades de ensino, pesquisa e extensão, além de promover o contato com escolas e a comunidade. Essa interação fortalece o papel social do curso, contribuindo para a difusão do conhecimento científico e para a formação de novos talentos na área.
Olhar para o futuro
O curso de Engenharia Mecânica da UFCG é um exemplo de resiliência institucional. De sua criação na Politécnica à desativação e posterior reconstrução, passando pela expansão acadêmica e pela busca por consolidação científica, o curso construiu uma trajetória marcada por desafios e conquistas. A atual renovação do corpo docente, com a entrada de jovens professores, traz novas perspectivas para o fortalecimento da pesquisa e para a evolução da pós-graduação.
Essa trajetória também se reflete na forma como seus docentes orientam as novas gerações. Mais do que transmitir conhecimentos técnicos, os professores do curso destacam a importância da postura ativa, da solidez nos fundamentos e da disposição para enfrentar desafios — elementos considerados essenciais para quem deseja trilhar um caminho consistente na Engenharia Mecânica.
O coordenador administrativo do curso, Prof. Manasses da Costa, mencionou que “uma das coisas que você não deverá se desvencilhar é de princípios da física, da matemática e da química, porque não se faz engenheiro sem esses princípios.”
Já o Dr. Carlos José, coordenador do LaMMEA, citou a importância de uma postura proativa e investigativa. “Saiam da sala de aula. Não achem que vai ser como no colégio, num modelo passivo. É importante sair da condição passiva do aluno tradicional e ir para uma condição mais proativa,” afirmou.
Por fim, o Dr. Jônatas Araújo encerrou: “Um conselho que eu daria ao estudante de hoje seria o de que, embora facilidades hajam com tecnologias digitais, nunca se deve perder de vista princípios de física, química, matemática, materiais de construção e proteção ambiental, pois são alicerces da engenharia”.
O Conexão CCT celebra a trajetória da Engenharia Mecânica na UFCG que, por sua vez, revela que sua história não é apenas técnica — mas também humana, coletiva e profundamente conectada ao desenvolvimento regional.


