Faltam bibliotecas no Brasil. Mas este não é o maior problema

Os dados sobre o número de bibliotecas no Brasil trazem uma boa e uma má notícia.

A boa: segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a proporção de cidades com bibliotecas subiu de 76,3% para 97,1% entre 1999 e 2014. Dos 5.570 municípios, apenas 112 ainda não possuem espaço público de leitura.

A má notícia: o Brasil possui uma biblioteca púbica para cada 30 mil habitantes, em média. Nos Estados Unidos, a proporção é de 1 para 19 mil. Na República Tcheca, que tem o melhor índice do mundo, a proporção é de 1 para cada 1.970 habitantes.

Ao todo, o Brasil tem 7.166 bibliotecas cadastradas no Sistema Nacional de Bibliotecas do Ministério da Cultura.

Outro dado negativo é o baixo índice de leitura dos brasileiros. De acordo com a pesquisa “Retratos da Leitura”, realizada pelo Ibope por encomenda do Instituto Pró-Livro em 2014, 44% dos brasileiros não tem o hábito de ler, e 30% nunca compraram um livro sequer.

Na média, cada pessoa lê 4,96 livros por ano. Segundo o Índice de Cultura Mundial, o Brasil ocupa apenas a 27ª posição em um ranking liderado pela Índia, onde as pessoas leem, em média, 10h40min por semana, o dobro do praticado no Brasil. Os indianos são seguidos por Tailândia, China, Filipinas, República Tcheca e França. Venezuela (14º lugar), Argentina (18º) e México (25º) estão à frente do Brasil.

 

Origem do problema

O brasileiro lê pouco porque tem poucas bibliotecas à disposição? Ou a relação de causa e efeito é inversa?

Na opinião de Galeno Amorim, presidente da Fundação do Observatório do Livro e da Leitura, o número de bibliotecas no Brasil é muito abaixo do ideal para formar um país de leitores. Mas o maior problema é a percepção de que elas não são itens importantes no cotidiano.

“A grande maioria da população sabe onde encontrar uma biblioteca. Só não vai. Mesmo porque permanece em sua cabeça que a biblioteca é um lugar para pesquisar e estudar e, se não está mais na escola, para que deveria ir lá? É um terrível equívoco, porém é uma dessas crenças dominantes”, pontua Galeno.

Para a professora da Universidade Federal do Paraná Elisa Dalla-Bona, é preciso olhar além dos números.

“A questão das bibliotecas tem tudo a ver com o trabalho que a escola faz com as crianças. É lá que o problema começa. É um trabalho mecânico, em que as crianças são empurradas para dentro das bibliotecas, têm que fazer silêncio, não podem mexer nos livros das prateleiras, não há prazer nenhum em ler”, afirma.

 

Tecnologia

O Brasil ainda busca aumentar o número de bibliotecas no momento em que países desenvolvidos passam a dar menos importância para o agrupamento de livros fisicamente no mesmo espaço. 

Com a popularização do acesso à rede e a grande difusão de conteúdo e informação, a tendência é a redução da leitura de livros físicos e de frequência nas bibliotecas tradicionais. Mas esta não é uma má notícia: a digitalização pode contribuir para democratizar o acesso ao conhecimento. No estado do Texas, nos Estados Unidos, foi fundada em 2014 a Bibliotech, primeira biblioteca pública sem livros impressos do país. São 30 mil obras em formato digital.

No Brasil, um exemplo é a Árvore de Livros, plataforma privada de leitura digital de e-books, disponível para alunos dos ensinos fundamental e médio de escolas parceiras e até mesmo para empresas, promovendo até campeonatos de leitura com premiação para os usuários e instituições que atingirem os melhores índices de leitura.

“Na internet, jovens e adultos acessam conteúdos bons e ruins, mas se bem orientados, podem ler livros riquíssimos, de qualquer lugar e no ritmo que considerarem melhor. Porém, se não tiveram uma boa formação para leitura na infância, se não aprenderam a ler por prazer, irão ler superficialmente na Internet e buscar bobagens”, reforça a Doutora em Educação e professora da Universidade de São Paulo (USP), Maria Ângela Borges Salvadori.

(Gazeta do Povo)