CONEXÃO CCT: ENGENHARIA DE PRODUÇÃO AMPLIA FRONTEIRAS NA UFCG

O que uma cooperativa de materiais recicláveis, uma clínica de saúde, uma pequena empresa e a própria universidade podem ter em comum? Apesar de atuarem em áreas muito diferentes, todas dependem de processos, pessoas, recursos e decisões que precisam funcionar de maneira organizada. É justamente nesse espaço que atua a Engenharia de Produção.

Na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), o curso de Engenharia de Produção do Centro de Ciências e Tecnologia (CCT) completou 20 anos no ano de 2025. Ao longo desse período, centenas de profissionais foram formados no campus de Campina Grande, enquanto a área ampliou sua presença dentro e fora da instituição.

Mais do que preparar profissionais para o ambiente industrial, o curso trabalha com uma questão central: como fazer sistemas e processos funcionarem melhor? Isso envolve reduzir desperdícios e custos, melhorar a qualidade, organizar recursos, planejar atividades e aumentar a eficiência sem deixar de considerar aspectos como ergonomia, segurança e sustentabilidade. A própria definição do curso coloca o engenheiro de produção em uma interface entre as engenharias e a administração. Essa característica ajuda a explicar por que a atuação profissional pode estar tanto em uma fábrica quanto em empresas de serviços, hospitais, universidades, instituições públicas ou negócios de pequeno e médio porte.

Um curso que começou antes mesmo de existir

A história da Engenharia de Produção na UFCG também é marcada pela integração entre diferentes áreas. Antes da criação da graduação, professores que já atuavam no CCT passaram por um processo de capacitação em Engenharia de Produção. Houve especialização e formação em nível de mestrado, além da criação de sucessivas comissões destinadas a estudar a viabilidade e estruturar o novo curso.

De acordo com os professores Ivanildo Fernandes e Johannes Derks, que participaram desse processo e recuperaram parte dessa história em entrevista ao Conexão CCT, a construção do projeto envolveu docentes de áreas como Engenharia Mecânica, Engenharia Civil, Engenharia Química, Matemática e Administração. A interdisciplinaridade, portanto, não apareceu apenas depois que o curso estava consolidado. Ela estava presente desde sua origem. Após diferentes etapas de discussão e elaboração do projeto pedagógico, a graduação foi implantada no campus de Campina Grande. Egídio Furlanetto foi o primeiro coordenador do curso, seguido posteriormente por outros docentes que ajudaram a conduzir sua consolidação. Em 2025, essa trajetória foi celebrada na Semana de Engenharia de Produção (SEP), que reuniu programação acadêmica e visitas técnicas, como também adotou como tema os desafios da área diante da Indústria 5.0.

Muito além de uma linha de produção

Se a fábrica ainda é um dos ambientes mais associados à profissão, os projetos atualmente desenvolvidos pela Unidade Acadêmica de Engenharia de Produção (UAEP) mostram como esse cenário vem mudando nos últimos anos. Um dos trabalhos de extensão, por exemplo, aplica conhecimentos de planejamento de fábrica e layout ao processo de coleta seletiva de materiais recicláveis da Cooperativa CAVI. O objetivo é pensar formas de tornar o fluxo produtivo mais racional e, ao mesmo tempo, melhorar as condições de segurança dos trabalhadores.

Em outra frente, a Engenharia de Produção encontra a Inteligência Artificial. Uma pesquisa coordenada pelo professor Fernando Schramm desenvolve um sistema inteligente para predição de evasão estudantil, utilizando indicadores acadêmicos e critérios relacionados à permanência dos estudantes. O projeto aparece entre as pesquisas da UAEP registradas no SIGAA da UFCG em 2025 e 2026.

Há também estudos voltados para pequenas empresas. O projeto Smart Forecasting, coordenado pelo professor Josenildo Brito de Oliveira, trabalha no desenvolvimento de uma ferramenta de previsão de demanda com modelos de machine learning. Nesse caso, dados e tecnologia são utilizados para ajudar negócios a planejar melhor suas decisões.

Outro destaque é o projeto “Diretrizes para Adoção de Gêmeos Digitais na Indústria da Paraíba: Um Estudo de Viabilidade”, desenvolvido pela UAEP em parceria com a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). A pesquisa, coordenada pela professora Cristiane Agra, utiliza a tecnologia de Gêmeos Digitais (Digital Twins) para criar réplicas virtuais de ambientes produtivos e logísticos, permitindo simular seu funcionamento e testar mudanças antes de aplicá-las no mundo real. Já uma pesquisa coordenada pelo professor Francisco Kegenaldo leva conceitos de Lean e Saúde 4.0 para a jornada de pacientes em uma clínica de curativos, utilizando simulação para estudar possíveis melhorias.

Também há pesquisas na área de desenvolvimento de metodologias, indicadores e software para avaliação ergonômica e gestão de Riscos Psicossociais no Trabalho, bem como ações de extensão desenvolvidas pelo professor Ivanildo Fernandes Araújo, em conjunto com a professora Taciana Lima Araújo. Estes projetos também aproximam a Engenharia de Produção de demandas sociais concretas. Com foco em ergonomia, acessibilidade e desenho universal, os trabalhos articulam diagnóstico técnico, proposição de ambientes inclusivos e atividades educativas em escolas, instituições religiosas e espaços de atendimento multiprofissional. Entre as iniciativas estão estudos sobre inclusão de idosos, reconstrução arquitetônica de espaços acessíveis e ações lúdicas de sensibilização, como o Tempo PAN, além de projetos que integram ensino, pesquisa e extensão na busca por melhores condições de uso, participação e qualidade de vida para pessoas com deficiência.

Destaca-se também a pesquisa desenvolvida pela professora Maria Betânia Gama dos Santos na Engenharia do Trabalho, especialmente em higiene ocupacional, segurança do trabalho e prevenção e controle de riscos. Seus estudos abordam a avaliação das condições ambientais e organizacionais do trabalho, incluindo conforto acústico e lumínico, comportamento humano, segurança de pessoas com deficiência, planejamento ambiental e sistemas integrados de gestão de segurança, saúde e meio ambiente. Essa atuação contribui para identificar perigos, analisar exposições e orientar medidas capazes de tornar os ambientes produtivos mais seguros e adequados aos trabalhadores.

Esses exemplos ajudam a mostrar uma mudança de perspectiva: para a Engenharia de Produção, não é necessário que exista uma linha de montagem para existir um processo a ser aperfeiçoado. Uma clínica possui fluxos. Uma universidade possui indicadores. Uma cooperativa possui movimentação de materiais. Uma pequena empresa precisa prever sua demanda. É a capacidade de analisar esses sistemas que conecta problemas aparentemente tão diferentes dentro da Engenharia de Produção.

O conjunto de projetos da UAEP inclui ainda temas como sustentabilidade de cooperativas agrícolas, segurança hídrica, bioeletricidade, mecanização da agricultura familiar, acessibilidade e segurança do trabalho. A inclusão de mulheres nas áreas tecnológicas também integra essa atuação. O CaririTec, coordenado pela professora Maria Creuza Borges de Araújo, desenvolve ações para incentivar a presença e a permanência de meninas e mulheres nas Ciências Exatas, Engenharias e Computação. A iniciativa já resultou em trabalhos de extensão e pesquisa voltados à representatividade feminina nas áreas STEM (Science, Technology, Engineering and Maths).

Uma área transversal

A contribuição da Engenharia de Produção também ultrapassa os limites do próprio curso. A UAEP mantém ainda professores e estruturas que participam da formação de estudantes de outras áreas do centro. São oferecidos componentes curriculares e conhecimentos relacionados, entre outros campos, à expressão gráfica, desenho técnico, ergonomia e qualidade.

A estrutura utilizada no ensino e na pesquisa inclui espaços destinados a sistemas CAD, além de atividades ligadas a simulação, logística, planejamento e controle da produção, ergonomia, higiene e segurança do trabalho, pesquisa operacional e modelagem. Essa integração reforça uma característica da própria Engenharia de Produção: dialogar com diferentes áreas em busca de soluções para problemas que raramente pertencem a apenas um campo do conhecimento.

Da UFCG para diferentes caminhos

Em duas décadas, centenas de estudantes passaram pela graduação em Engenharia de Produção da UFCG. Segundo o professor Ivanildo, atual coordenador do curso, os egressos seguiram trajetórias diversas, com atuação no setor industrial, na logística, em empresas de diferentes portes e na carreira acadêmica, dentro e fora da Paraíba. Há profissionais formados pelo curso atuando em outras regiões do país e, inclusive, no exterior.

Para o professor, entretanto, ainda existe espaço para ampliar a presença do engenheiro de produção nas empresas de Campina Grande e da região. Processos mal organizados, custos elevados, dificuldades logísticas e desperdícios são problemas que podem representar oportunidades de atuação, inclusive em pequenos e médios negócios. A lógica é simples: melhorar um processo não significa apenas produzir mais. Pode significar utilizar melhor os recursos disponíveis, diminuir perdas, melhorar as condições de trabalho e tomar decisões com base em informações consolidadas.

Passos para o futuro

Depois de duas décadas de formação, a Engenharia de Produção da UFCG entra em uma nova etapa. Entre os desafios apontados pela Unidade estão o fortalecimento da infraestrutura, a melhoria contínua do curso e a ampliação das atividades acadêmicas. Os docentes também relatam a existência de discussões voltadas à estruturação de uma futura pós-graduação na área.

Enquanto isso, ensino, pesquisa e extensão mostram uma Engenharia de Produção cada vez menos limitada às fronteiras tradicionais da indústria. Seja analisando o funcionamento de uma empresa, criando modelos para prever a evasão de estudantes, reorganizando o trabalho em uma cooperativa ou estudando a jornada de pacientes em uma clínica, o princípio permanece semelhante: entender como um sistema funciona para encontrar maneiras de fazê-lo funcionar melhor.

E talvez seja justamente essa capacidade de se adaptar a novos problemas que explique por que, duas décadas depois de sua criação, a Engenharia de Produção continua encontrando novos lugares para transitar.